Bom dia, meu caro Alberto Figueira. Em atenção ao seu questionamento — e aproveitando para responder também à Selminha Rousseff, à Silvia De Castro Arruda e a todos os demais membros do grupo que não entendem o porquê de haver tolerância com membros como o senhor André Luiz Fontes —, justifico que ela se dá exclusivamente pelo fato de este grupo ter como objetivo principal tentar colaborar com a conscientização coletiva.
Essa conscientização coletiva só será possível se no grupo ocorrerem debates de qualidade e com bons conteúdos. Por sua vez, para gerar debates com bons conteúdos é crítico a existência de temas contraditórios. Obviamente, os temas contraditórios não poderão exceder os limites delineados pelos objetivos e regras do grupo.
Uma característica que este grupo tenta manter desde a sua criação é a manutenção da pluralidade ideológica na composição dos seus membros. Não podemos esquecer que pessoas saudáveis não precisam de medicamentos.
Fraterno abraço e uma ótima semana para todos.
P.S.: Esta postagem originalmente seria um comentário em uma publicação do André Fontes onde ele sugeria, equivocadamente, que no atual governo não há corrupção e que nos governos petistas houve desvios de verbas do BNDES para países "comunistas". Aparentemente, a postagem foi excluída.
Dos lacaios e dos lambe-botas e dos muitos que por cá existem!
Dos lacaios e dos lambe-botas e dos muitos que por cá existem!
Lacaio: substantivo masculino que designa um criado, geralmente trajado de libré. O lacaio era uma figura do século XVIII, o fiel criado trajado com cabeleira empoada a pó de talco, que cirandou pelos salões da aristocracia até bem entrado o século XIX.
Caiu posteriormente no linguajar, mais solto e desbragado, mas mais honesto, do povo, como sinónimo de alguém que é um capacho, um pau-mandado, um indivíduo servil, subserviente ou, mais comumente, um lambe-botas. Justamente o General Wilhelm Keitel, um dos íntimos de Hitler, era apodado de “Lakeitel”, um nome pejorativo que brincava com a fonética do nome do general e a sua atitude servil perante o chefe. Keitel era resumido, no dizer dos outros, a um grande lambe-botas.
Os lacaios, nesse sentido pejorativo, sempre fizeram escol em terras lusas. Hoje, mais do que nunca, eles aí perambulam em todas as instituições. Os lacaios estão sentadinhos junto ao poder, por vezes em instituições que deveriam pugnar por orientações democráticas, mas orientam antes a sua atividade pelo servilismo nojento e pela vassalagem que prestam aos poderosos.
Veja-se o caso de vários pasquins jornaleiros locais, regionais e mesmo nacionais, que servem apenas o interesse dos poderes instituídos, cobrindo a sua acéfala peregrinação com a pretensa defesa de um bairrismo acabrunhante ou noticiando parolices abjectas. Aliás, os apetecidos meios de comunicação, jornais e televisões, são manjares apetecidos para os senhores do poder, permeáveis que são essas instituições à influência malévola e corruptora do poder. A troca é simples: eu publico uns editais no teu pasquim, pago, e tu publicas apenas coisas agradáveis ou evitas publicar coisas desagradáveis, sendo que, nas mais das vezes, apenas publicas o que eu quero. Simples, não é? Assim cria-se uma verdadeira relação canina, onde o pasquim não irá nunca morder o dono.
Os lacaios são os cães de fila dos poderosos, fazem o seu trabalho sujo. Se cuidarem de observar, nunca é o poderoso que emite as declarações mais gravosas, ou os atos mais velhacos; isso fica a cargo do lacaio, esse nobre cão de fila que se infiltra e vai fazendo o seu trabalho de sapa, arcando com os riscos dos atos e das palavras que o dono manda reproduzir. O lacaio é recompensado com prebendas e ofertas, com lugares bem pagos ou com negociatas de duvidosa legalidade. Poderoso e feliz, o lacaio prospera. Na atual conjuntura, o servilismo acéfalo e acrítico é premiado. Este é o país em que o lacaio nunca desapareceu, antes se foi adaptando aos seus novos lugares e funções.
Conclusão: O texto expõe, com forte carga crítica e metáforas incisivas, a perpetuação da figura do lacaio na sociedade contemporânea. Ao traçar um paralelo entre a submissão histórica e as relações de conveniência entre o poder político e os meios de comunicação, o autor alerta para os perigos do servilismo institucional e da falta de independência crítica, onde a bajulação e a subserviência continuam a ser recompensadas em detrimento da democracia.
Referências e Contexto Intelectual
Autor da Obra: A crônica foi originalmente publicada no blog de opinião política e sátira portuguesa Barão da Tróia.
Contexto Histórico/Literário citado: Referência à figura histórica do lacaio (séculos XVIII e XIX) e ao caso de Wilhelm Keitel (general alemão apelidado pejorativamente de "Lakeitel" por sua subservância a Adolf Hitler).
Debate sobre Estado de Bem-Estar Social No grupo CPRS
Autor: Dag Vulpi | Texto escrito em: 25 de abril de 2020
Categoria: Ciência Política, História, Economia e Sociedade.
Boa tarde, meus caros amigos membros deste grupo. Dando prosseguimento à nossa tentativa de tornar este espaço um local dedicado ao debate político qualificado — distanciando-nos das trocas de farpas e ofensas que infelizmente caracterizam a maioria dos grupos nas redes sociais —, trago um novo tema para a nossa reflexão.
Após apresentarmos a teoria do Multiplicador Keynesiano, que foi muito bem recebida por diversos participantes, proponho agora a discussão sobre a teoria e a prática do Estado de Bem-Estar Social (Welfare State).
Entende-se por Estado de Bem-Estar Social um conjunto de políticas públicas estruturadas para garantir minimamente a proteção social dos indivíduos, contemplando pilares fundamentais como educação pública, saúde universal e seguridade social. Ao contrário do que o senso comum costuma alardear, o Welfare State não possui origem exclusivamente socialista. Historicamente, sua formulação inicial foi utilizada justamente como um mecanismo de contenção para mitigar o avanço do comunismo e estabilizar o sistema capitalista.
1. A Origem Histórica: De Bismarck à Contenção do Marxismo
Para compreender a profundidade desse modelo e desmistificar a ideia de que se trata de uma prática estritamente revolucionária, é preciso recuar à Europa do século XIX. O Estado de Bem-Estar Social nasceu na década de 1880, na Prússia/Alemanha, sob a liderança do chanceler conservador Otto von Bismarck.
Naquele contexto, um dos maiores receios da burguesia e da aristocracia alemã era o avanço da instrução e da organização política do proletariado. A classe trabalhadora crescia rapidamente e atuava sob condições sub-humanas, ao mesmo tempo em que passava a ter acesso direto às formulações teóricas e revolucionárias de Karl Marx. O temor de uma insurreição motivou uma série de reformas conduzidas pelo próprio Estado capitalista.
Entre 1884 e 1887, Bismarck aprovou no Reichstag leis pioneiras que protegiam os trabalhadores contra acidentes de trabalho, doenças e velhice. Fica evidente, portanto, que a implementação inicial da proteção social pública foi um movimento estratégico da própria burguesia para arrefecer os ânimos da classe operária, abrandar as crueldades mais visíveis do capitalismo e abortar o avanço de insurreições comunistas.
2. O Debate no Grupo: Síntese das Contribuições dos Membros
A proposição do tema gerou uma rica troca de perspectivas entre os participantes do grupo, demonstrando diferentes leituras sobre a relação entre capitalismo, constituição, mercado e direitos sociais:
- Direitos Fundamentais e a Constituição de 1988: Destacou-se o papel da Constituição Cidadã como o verdadeiro lastro dos direitos sociais no Brasil. Argumentou-se que as políticas de combate à desigualdade implementadas nos governos do PT fundamentaram-se no cumprimento dos preceitos constitucionais e na articulação entre o Estado de Bem-Estar Social e o Multiplicador Keynesiano — combinando transferência de renda e estímulo ao consumo interno.
- Capitalismo vs. Dignidade Humana: Em contraponto aos discursos que associam qualquer ação estatal ao comunismo, defendeu-se que o avanço pessoal e a prosperidade privada não contradizem a busca por igualdade de oportunidades. A defesa de uma rede de proteção não significa oposição à riqueza, mas recusa à miséria extrema e ao abandono social.
- Desenvolvimento e Contexto Internacional: Foram lembrados os exemplos da reconstrução europeia pós-Segunda Guerra Mundial (como o National Health Service no Reino Unido) e a aplicação do modelo nos países nórdicos. Em contrapartida, levantaram-se questionamentos sobre os desafios de sustentabilidade fiscal e escala demográfica do modelo em países em desenvolvimento.
- Carga Tributária e Desigualdade: Debateu-se o perfil da tributação no Brasil, apontando a distorção de um sistema que incide fortemente sobre o consumo — penalizando os mais pobres — em detrimento de uma renda e patrimônio progressivos, elemento central para o financiamento sustentável do bem-estar social.
Conclusão e Reflexão
O Estado de Bem-Estar Social não é uma utopia ideológica isolada, mas uma conquista histórica da civilização democrática. Ele articula a busca por justiça social com a própria estabilidade institucional da economia de mercado. Compreender suas bases teóricas — do conservadorismo de Bismarck à social-democracia moderna — permite superar rotulações simplistas e focar no que realmente importa: a construção de um país que garanta oportunidades reais e dignidade básica para todos os seus cidadãos.
Confira o Debate Original AQUI
Referências e Leituras Recomendadas:
- ESPING-ANDERSEN, Gøsta. Os Três Mundos do Capitalismo do Bem-Estar Social. São Paulo: Editora Teoria & Debate, 1991.
- HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. (Análise das reformas sociais bismarckianas na Alemanha).
- KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. (Título II - Dos Direitos e Garantias Fundamentais; Título VIII - Da Ordem Social).


